segunda-feira, 6 de julho de 2009

Solidão voluntária

Não é apenas aquela preguiça de falar, se comunicar ou conviver com alguém. Tem horas em que bate mesmo a vontade de ficar sozinho, de pensar em nada, de fazer o que se quer. Não tem nada a ver com estar meio down ou triste, nada a ver com isso. É simplesmente vontade ficar sozinho. O pior de tudo é que quando a gente faz isso, se passa por louco, esquizofrênico ou algo do tipo.
É claro que ficar sozinho não significa evitar qualquer tipo de contato com seres humanos. Significa estar independente de qualquer comunicação. Poder caminhar dois quilômetros por uma rua lotada sem falar com ninguém, só observando as pessoas. Almoçar num restaurante cheio, pensando só sobre si mesmo, curtindo-se. Por isso, não quer dizer que estar sozinho seja estar trancado num quarto, dormindo ou coisa assim.
O problema, se alguém sabe que tu é assim, parece mesmo que é antropofóbico ou coisa parecida. Não posso negar, se alguém me falasse que gosta de ficar sozinho, sozinho mesmo, sem dar esta explicação que acabei de dar, soa bem estranho. O ideal seria não se declarar um amante da solidão eventual, mas não é fácil livrar-se de alguns poucos e ruins. Parece uma tarefa tão simples, já que exige somente uma pessoa. Mas não é.




"Aí, bolei o que é que eu devia fazer: ia fingir que era surdo-mudo. Desse modo, não precisava ter nenhuma conversa imbecil e inútil com ninguém. Se alguém quisesse me dizer alguma coisa, teria de escrever o troço num pedaço de papel e me entregar. Depois de algum tempo iam ficar um bocado aporrinhados de ter que fazer tudo isso, e aí eu nunca mais precisaria conversar pelo resto da minha vida. Todo mundo ia pensar que eu era só um infeliz dum filho da mãe surdo-mudo, e iam me deixar em paz sozinho. Me deixavam botar gasolina e óleo na droga dos carros deles, e me pagavam um salário para fazer isso. Com o dinheiro que fosse ganhando, construiria uma cabaninha para mim em algum lugar e viveria lá o resto da vida. Ia fazer a cabana bem pertinho de uma floresta, mas não dentro da mata, porque ia fazer questão de ter a casa ensolarada pra burro o tempo todo. Cozinharia minha própria comida e mais tarde, se quisesse casar ou coisa parecida, ia encontrar uma garota bonita, também surdo-muda, e nos casaríamos. Ela viria viver comigo na cabana e, se quisesse me dizer alguma coisa, teria de escrever numa porcaria dum pedaço de papel, como todo mundo. Se tivéssemos filhos, iam ficar escondidos em algum canto. Podíamos comprar uma porção de livros para eles e nós mesmos íamos ensiná-los a ler e escrever."



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